Nem todos os que tomam esses remédios querem viver sem sofrimento: o que não querem é o sofrimento sem vida.
Todos os dias, de manhã, depois do café, eu procuro uma cartela
prateada que fica em cima de meu criado-mudo. Religiosamente, tomo um
comprimido. É um antidepressivo. Não tenho vergonha. Estou em
tratamento, acompanhada por médico e psicólogo. Não sou mais fraca do
que ninguém por ter ingerir a pílula. Não quero tomá-lo para sempre, mas
não quero abandoná-lo apenas para provar a alguém que dou conta de
tudo. Porque eu não dou.
Em dois meses, meu (ex-)marido me pediu o divórcio de maneira repentina
e perdi meu avô, que morreu em casa, após ter ficado gravemente doente
durante meses. Dois acontecimentos muito intensos, em período curto de
tempo. Procurei ajuda na terapia. Cheguei a ter sessões duas vezes por
semana. Um dia, achando que já estava melhor, quis ficar sozinha em
casa. Chorei por horas seguidas, passando a noite em claro. Era um
desespero sem fim. Dificuldades para respirar. Mãos tremendo. De manhã,
me arrumei e fui sozinha ao pronto-socorro. Não sei como cheguei lá.
Precisava me acalmar, nem que fosse de modo artificial, com a ajuda de
remédios. Nesse dia, percebi, com o auxílio também da terapia, que
necessitava mais do que conversa.
Eu estava doente. Mentalmente doente. Houve um desequilíbrio
aterrorizador, que me tirou do prumo, que provocou uma queda abissal.
Além da crise que me levou ao pronto-socorro, emagrecia continuamente e
não tinha poder nenhum de concentração. Escolhi o psiquiatra pelo
currículo: procurei alguém com boa formação acadêmica e experiência
clínica, mas também pesquisador. Fui orientada a tomar um
antidepressivo, com dosagem mínima, e a reforçar os exercícios físicos,
além de continuar com a terapia. Faço tudo isso, há quase um ano.
Mas a pílula não me fez parar de sofrer. Chorei muito pela tristeza das
perdas, pelo desprezo que senti, pelas mudanças grandes que me
assolaram. Passei por períodos de angústia, nervosismo, pensamentos
confusos. Houve dias em que não tive vontade de sair de casa, e não saí.
Ainda passo por tudo isso, mas em “dosagens” cada vez menores. Voltei a
ter mais controle sobre minha vida: tenho rotina de trabalho novamente,
pude me mudar para Lisboa (por conta do doutorado), consigo ficar
sozinha, lido melhor com a tristeza que ainda vem.
Há pessoas que procuram antidepressivos para tentar evitar a dor, e há
médicos que indicam esses medicamentos de modo desnecessário?
Certamente, pelo que lemos na imprensa. Mas nem todos os que tomam esses
remédios estão fugindo do sofrimento. Eles querem escapar da sensação
da falta de ar, do coração acelerado, do choro que não passa nunca, do
medo sem motivo que vira companheiro de vida. São pessoas que não querem
viver sem sofrimento: o que não querem é o sofrimento sem vida.
Escrevi este texto porque ouço com certa frequência a pergunta: “Ainda
toma remédio?”. E, algumas vezes, a questão vem acompanhada de
sugestões: “Mas por que você não faz mais exercício, para parar com
isso?”. “Já tentou ficar sem tomar?”. “Isso não é mania do médico,
não?”. Bombardeada com perguntas assim e me sentindo mais inteira, pedi a
meu psiquiatra que tentássemos reduzir o remédio. Ele acatou minha
decisão, de forma experimental. Foram dias horríveis...
Eu ainda não estou pronta. Mas estou no caminho. O medicamento me ajuda
nisso, assim como a terapia, os exercícios, a família, os amigos, a
música, o trabalho, o amor... E também este texto, e todos os outros que
venho escrevendo. E, por isso, agradeço a sua leitura.
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